200 mil usuários deixam Uber forçando CEO a sair do conselho de Trump

Enquanto o Vale do Silício elabora uma carta de protesto contra as agressivas iniciativas de Donald Trump contra imigrantes o CEO do Uber sentava-se no conselho que trabalha com o novo presidente americano. De todas as empresas do Vale o Uber talvez seja o mais sensível a políticas públicas e não é de se surpreender que tenha escolhido um caminho menos conflitante com a presidência. Principalmente porque ter Trump no seu calcanhar é bem mais complicado que brigar com Obama. Mas a decisão de Travis Kalanick gerou mais dor de cabeça do que esperava. Hoje o CEO teve que fazer um comunicado geral na empresa para se explicar a funcionários insatisfeitos com sua postura. Além disso, uma enxurrada de usuários começou a deletar o aplicativo em revolta. Segundo relatos, mais de 200 mil contas foram desativadas. Como agravante, vários motoristas do Uber são imigrantes que usam a plataforma para compensar a falta de emprego formal para suas condições.

Ontem Travis jogou a toalha e pediu para sair do conselho de Trump. Embora a saída seja comemorada por que é contra o presidente muitos defendem que é preciso manter um representante do Vale do Silício na mesa para justamente para deixar clara a postura dos executivos e das empresas que defendem uma posição mais global para atrair talentos independente de suas origens. Faz sentido. Além de ser um dos principais segmentos da economia americana, o mercado de Tech tem poder de barganha para frear impulsos de Trump e influenciar sua agenda de forma positiva. Só que a turba se movimenta de forma pouco controlável e com foices tochas tomou a Internet com ameaças e críticas apontando Kalanick como aliado de Donald Trump. Os concorrentes aproveitaram para botar lenha na fogueira. A assossiação de taxistas de Nova York – a mais mafiosa de todas – foi a público para expor o relacionamento do CEO da Uber com Trump. Lyft, o principal concorrente do serviço, foi menos agressivo alfinetando com a doação de U$1 milhão para uma entidade que protege refugiados.

Nesta quarta funcionários circularam uma carta demonstrando preocupação com o impacto que a presença no conselho traria à marca da empresa. Na quinta Travis ligou para Trump e anunciou sua retirada.

O problema não está na entrada de Travis no conselho nem na incompreensão da turba. O problema é que a marca Uber já não faz os corações de seus usuários bater com tanta força como quando a empresa surgiu desbravando o odiado segmento de taxi. Mesmo voltando atrás o evento mostra que o Uber está entrando em um momento delicado de posicionamento de marca. É frequente o número de usuários que reclama de atitudes como o aumento abusivo de tarifas, a mordida de 25% que o serviço cobra de motoristas e de diversos pequenos problemas como corridas que são cobradas injustamente. Uma multiplicidade de pequenos desafetos vai cansando a admiração que pessoas têm pela marca e isso pode se tornar a maior ameaça que o Uber pode ter pela frente. A empresa ainda precisa da opinião pública para enfrentar governos altamente entrelaçados com os serviços locais de taxi e concorrentes que pipocam aos montes em diferentes mercados. A reação contra seu CEO é mais que um infortúnio desentendimento entre o mercado e a empresa. Independe se a reação foi justa ou não. Um executivo de marketing precisa avaliar a força que a marca deixou de ter para defender seu discurso. O que podemos presenciar é a chamada morte-por-milhares-de-cortes (death by a thousand cuts) onde pequenos problemas acabam aniquilando as forças que a empresa reuniu para sobreviver neste mercado turbulento. Quando perceber esta fragilidade taxistas, concorrentes e governos poderão deslanchar milhares de ‘cortes’ como notícias sobre assaltos, estupros e incidentes que provavelmente acontecem há anos em corridas de taxi, mas têm um efeito devastador na marca da empresa.

Snapchat revela segredos para abrir capital

Com 5 anos de idade e depois de recusar propostas bilionárias o Snapchat deve finalmente abrir capital e para isso enviou uma documentação (S-1) que revela algumas fofocas sobre os bastidores da empresa.

O 3o elemento: Se a empresa alcançar na bolsa a avaliação prevista de U$25 bilhões os maiores sorrisos estarão estampados nos rostos dos fundadores Evan Spiegel e Bobby Murphy. Mas um terceiro idealizador que estudou com os rapazes de Stanford – Reggie Brown – entrou na justiça contra eles em 2013 alegando que a idéia de fotos perecíveis partiu de sua cabeça. As desavenças foram resolvidas com um acordo onde o Snapchat pagou U$158 milhões a Brown. É bem menos que os U$500 milhões que ele pediu e diante dos 25 bi pela frente não me espantaria se Brown voltasse a espernear. Pelo visto estudantes de Stanford não resolvem seus problemas na hora do recreio.

O maior cliente do Google: O que fazer quando seu app consome uma enormidade de banda e armazenamento mas você ainda não descobriu uma forma muito de gerar receita? Você faz amigos. Desde 2013 o Snapchat vem usando o Google Cloud em condições especiais. Nos últimos dias fechou um acordo em que se compromete a gastar pelo menos U$400 milhões por ano em infraestrutura com o parceiro nos próximos 5 anos. Obviamente o contrato é cheio de entrelinhas mas a conta referencia um gasto de U$2 bilhões pra manter o serviço rodando. Considerando que o Cloud do Google é apenas uma fração da categoria de serviços cujo faturamento do último trimestre foi U$3,4bi, é de se esperar que o Snapchat seja um dos (ou o) maior cliente da empresa neste produto. Com o cloud da Amazon sendo a menina dos olhos que vem empurrando margens pra cima e mostrando resultados cada vez melhores, o Google também está tratando seu Cloud com muito carinho, principalmente porque as receitas com busca não crescem como antigamente. Ter o Google como parceiro não é uma má idéia. Alguns críticos ressaltam que o fato do Google Cloud não atuar na China pode ser uma barreira mas serviços como o Snapchat são muito difíceis de se enquadrarem nas regras rigorosas do governo chinês e dificilmente a empresa vai querer descascar esse abacaxi nos próximos anos.

Show me the money: Embora seja uma marca estabelecida e popular entre jovens não faltam desafios para o Snapchat se provar útil para inve$tidores. Em 2016 a empresa reportou um prejuízo de U$515 milhões. O faturamento neste mesmo ano foi de U$404 milhões sendo este número 500% maior que o de 2015 principalmente porque a abertura de fontes de receita começou a acontecer mais recentemente. Depois do IPO a empresa deve aumentar os gastos e terá que continuar a escalar suas receitas para agradar quem comprar suas ações. Veja quanto a empresa já captou antes dos U$3 bi que pretende pegar nas próximas semanas:
U$485 mil 2012 (Barry Eagers quando viu sua filha usando)
U$13.5 milhões (Benchmark)
U$60 milhões (IVP)
U$50 milhões (Coatue Management)
U$ 485 milhões (23 investidores incluindo Yahoo e Alibaba)
U$1.6 bilhões (Sequoia, IVP, Fidelity entre outros)

Os riscos: Hackers, phishing, reguladores europeus e americanos, Brexit e a China são os principais riscos listados pela empresa no documento. Nada que já não exista como ameaça em outras empresas de tecnologia.

A abertura de capital coloca a empresa em uma posição de confronto maior com concorrentes como o Facebook, que tentou uma aquisição por U$3bi e ouviu um não redondo. De lá pra cá o Instagram e o Facebook Messenger vêm ganhando funcionalidades parecidas com a do Snapchat para não perder usuários para os rapazes de Stanford. A briga vai ser grande e talvez U$3bi seja pouco para entrar nesta arena, principalmente com um corpo de 1.859 funcionários e muita pressa para encontrar seus potes de ouro.

Whatsapp testa exclusão e edição de mensagens ainda não lidas

Ops! Sujeito envia mensagem pro grupo errado ou escreve e envia antes de pensar duas vezes. Quem nunca??? Essa velha dor pode estar com os dias contados. Segundo este artigo do The Telegraph, o último beta do Whatsapp está testando a possibilidade de alterar ou até deletar mensagens enviadas caso ainda não tenham sido lidas pelo receptor. Este recurso é aguardado por muitos usuários do aplicativo mas só deve estar disponível caso os testes não apresentem problemas de sincronia mas é bem possível que já chegue em pelo menos uma plataforma (iOS ou Android) em breve.

Além deste recurso o novo beta também estaria trazendo a possibilidade de compartilhar sua posição enquanto se desloca para facilitar o encontro com contatos do app. Algo parecido com o compartilhamento de rotas do Waze, só que em escala menor podendo, por exemplo localizar pessoas dentro de um shopping.

Quando foi lançado o Whatsapp insistiu em uma interface mais limpa com poucos recursos e Zuckerberg deixou os gestores do aplicativo seguirem sua linha de raciocínio mesmo depois de ter pago uma fortuna para adquirir a empresa. Enquanto isso o Facebook Messenger trilhou um caminho de incrementos e adição de recursos sem freios. Mas com usuários do Whatsapp já fluentes no aplicativo e a constante ameaça de aplicativos substitutos ganharem mercado com recursos novos vem forçando o Whats a introduzir recursos já conhecidos como ligações por voz e vídeo e edição de imagens compartilhadas.

A última versão de iOS já trouxe outro grande aguardado recurso para exclusão de parte dos arquivos de mídia que costumam abarrotar o espaço disponível em iPhones.

Uber vai adicionar carros autônomos da Mercedes-Benz à sua frota

Uber e Mercedes-Benz acabaram de fechar um acordo pelo qual os carros autônomos da montadora serão aos poucos introduzidos na frota da Uber. Com a marca e o negócio já se consolidando o Uber já se vinha se movimentando para o próximos grande passo da empresa: substituir motoristas por veículos autônomos. Além de eliminar a trabalhosa gestão da rede de motoristas para equilíbrio de oferta e demanda, a troca de humanos por veículos que se dirigem sozinhos também ajuda por tirar da frente egos e erros humanos como o escândalo de estupro que circula no noticiário brasileiro esta semana. A realidade onde frotas de autônomos substituiriam motoristas de Uber pelo mundo ainda é distante. Pelas últimas previsões do Pulsotech, somente a partir de 2020 teríamos alguns exemplos tímidos consolidados e só a partir de 2030 os autônomos devem se tornar um tipo comum nas avenidas de países desenvolvidos, em regiões específicas. Mas quem ainda acha que isso é coisa de ficção-científica, saiba que já existem dois estados americanos que contam com exemplares autônomos no Uber: Pensilvania e Arizona. Quem solicitar um veículo nestas regiões poderá ser surpreendido por um Volvo com uma pessoa sentada no banco do passageiro. Isso porque as permissões dos governos locais para a realização de testes ainda exige a possibilidade de um ser humano tomar o controle do carro se necessário. A Uber investiu pesado em pesquisa montando uma equipe de talentos em robótica e inteligência para os próprios projetos de veículos. Com o tempo percebeu que fabricar um carro envolve expertise e habilidades muito complexas. Logo selou um acordo de U$300 milhões com a Volvo onde além de troca de recursos e pesquisas as empresas exploram suas forças para a fabricação de um modelo em conjunto. Enquanto a Volvo traz pro acordo seu larga experiência produtiva, a Uber oferece a disponibilidade de uma frota em movimento para a realização de testes controlados em ruas de verdade. O acordo com a Mercedes-Benz é diferente. Neste caso, as empresas não estarão de mãos dadas no projeto e fabricação de veículos com a Uber somente abrindo espaço em sua frota para os carros da Mercedes. Com os jovens das novas gerações cada vez menos interessadas em possuir carros e o modelo Uber tomando conta está claro que as vendas B2C devem ser aos poucos substituídas por modelos de compartilhamento e montadoras já estão colocando um pé em cada mercado para não ficar de fora quando a ruptura chegar.

Não há data definida para a entrada da Mercedes-Benz na frota do Uber. Quanto ao Brasil, seria uma surpresa se o governo de alguma cidade com infraestrutura para receber autônomos autorizasse testes destes veículos tão cedo.

Veja mais neste artigo da Reuters

O futuro editorial: ‘leitores’, ‘jornalistas’ e ‘verdade’ em 10 anos

Nos próximos anos o processo editorial, a forma como consumimos notícias e a estrutura deste mercado será bastante tumultuado. É bem provável que tudo termine em um avanço humano, mas o ano passado mostrou que até lá muita confusão deve acontecer.

“Se a mãe de Mary não tivesse morrido Al Gore provavelmente seria presidente dos EUA.” A frase é dita por um dos integrantes do programa 60 minutos e faz referência à fatalidade que impediu que a produtora Mary Mapes publicasse um programa que poderia ter mudado o resultado das eleições de 2000 que foi decidida por 537 votos. O nome do filme em português é Conspiração em Poder mas o título na língua original aponta para um termo cuja definição no dicionário deve sofrer grandes mudanças nos próximos 10 anos: Truth (“Verdade”).

O título em português, por outro lado, mostra como o jogo de interesses pode alterar o que é publicado mesmo por um dos últimos pilares do bom jornalismo. O programa 60 minutes era um dos poucos que ainda preservavam um jornalismo comprometido com o aprofundamento e a verificação de fatos para a denúncia e a exposição de temas complexos ou desvirtuados para manipular a opinião pública. Algo como o Globo Reporter antes de ser direcionado para matérias sobre a arara-do-bico-roxo. A “verdade”, mesmo para grandes empresas de notícia, sempre foi uma cebola. A comparação à frase de Carl Sandburg brinca com o exercício de descascar uma cebola eliminando os envoltórios desvirtuados para encontrar um núcleo puro e verdadeiro. Só há cascas em uma cebola e esse talvez seja o maior aprendizado pelo qual as massas passarão nos próximos anos.

A forma pela qual consumimos notícias e o nosso relacionamento com a noção de ‘verdade’ deve mudar bastante. No meio do caminho haverá muita confusão e a transição já se mostrou bastante complicada em 2016. Ano passado foi marcado por três eventos relevantes: Dilma, Trump e Brexit. Em todos eles as redes sociais tiveram uma participação importantíssima para a propagação de idéias e tomaram a liderança como meios influenciadores. Como a Internet opera no caos democrático o resultado alcançado foi muitas vezes surpreendente e o controle parece ter sido perdido. É isso mesmo. A nova mídia é caótica e está se estabelecendo na sociedade antes que estejamos prontos para nos alimentarmos dela.

No começo da história editorial a chamada imprensa marrom (com jornais que publicavam mentiras e matérias de forma menos responsável) era bem forte mas logo o mercado se consolidou em alguns poucos grandes veículos responsáveis por determinar quais notícias chegariam a nossos ouvidos. Este cardápio reduzido passou a existir porque para transmitir um canal de TV, emitir ondas de rádio ou distribuir um jornal em grandes escalas existiam limitadores físicos e financeiros relevantes. O espectro é limitado e muitas rádios acabam gerando chiado com a sobreposição do sinal de uma sobre a outra. O mesmo acontecia com o sinal de TV aberta. Os jornais eram ainda mais complicados porque exigiam a distribuição física das gráficas até a residência dos leitores ou bancas de jornal. Conquistar um destes canais de distribuição (pelo ar ou pela terra) não era para qualquer um. Os limitadores físicos e financeiros permitiram que grandes empresas de mídia se consolidassem em um oligopólio sobre o conteúdo que chegava a cada um de nós. Com grandes poderes estes canais oscilavam entre uma independência saudável e a forte influência de grupos de interesses e (mais tarde) de anunciantes. Mas por rodarem em canais unidirecionais, com pouca dinâmica para contestação e troca de opinião com leitores e espectadores, os veículos acabavam definindo o que era verdade. Poucos contestavam o que era apresentado no Jornal Nacional e noticiários de grande alcance ajudavam a definir o rumo do país. Não a toa governos autoritários começavam seus domínios se apoderando de canais de TV, rádio e jornais… e agora restringindo o acesso à Internet. Mas esta última trouxe elementos mais complexos para quem deseja controlar seu conteúdo. A voz da Internet não é concentrada em poucos canais. Surge de milhares de usuários que além de publicarem conteúdo próprio questionam, denigrem, agregam e defendem imediatamente o que os velhos veículos publicam.

Há 6 anos me reuni com os executivos dos principais jornais brasileiros e as opiniões do provir ainda eram mistas e, em sua maioria, equivocadas. A confusão não é exclusividade deles. O mesmo acontecia com revistas e com canais de TV até pouco tempo atrás e um dos maiores jornais do mundo – The New York Times – teve que sofrer o vazamento de um dossiê interno para deixar a empresa em alerta sobre o declínio de seu modelo de negócio.

Nos últimos 3 anos a realidade vem sendo exposta para estas empresas e 2016 entrou com o pé na porta. Publicamos aqui no Pulsotech, faz mais de um ano, que 2017 seria um ano simbólico para este segmento. O ano em que sociedade, mercado e governos teriam melhor visibilidade sobre os problemas da nova forma de consumo de conteúdo. E este ano começou com Zuckerberg anunciando os esforços da rede social para desenvolver mecanismos que automaticamente denunciariam conteúdos falsos publicados no Facebook.

A urgência vinha da constatação de que em 2016 – marcado pelas eleições presidenciais de Donald Trump contra Hillary Clinton – notícias falsas publicadas por blogs disfarçados de jornais ou bureaus de mídia ganharam – em compartilhamento e exposição – das notícias ‘verdadeiras’ publicadas por produções mais sérias. ÓBVIO. Basta passar pelas principais páginas de sites e portais para entender que as notícias de maior destaque são as mais exdrúxulas. O povo, de todas as camadas sociais, gosta de drama. Prefere um texto polêmico ou bizarro e nesta linha notícias fabricadas conseguem comportar mais deste tempero do que as ‘verdades’, que navegam em mares mais monótonos.

A revista Wired (já escrevemos isso no começo de 2016) começou o ano passado com sua carta editorial listando, entre as principais descobertas do ano porvir, que aquele seria o primeiro ano onde um presidente seria eleito através do Facebook. Na mosca. A campanha americana foi marcada por acusações e bombas editoriais arremessadas às vésperas das urnas ou em respostas a acusações offline do sujo jogo eleitoral. O mesmo foi presenciado nos debates ingleses sobre o Brexit e nas eloquentes discussões partidárias que, salpicadas por protestos, criaram o molho que definiu o sabor do impeachment da presidente Dilma Roussef. Foi tudo muito confuso e pouco controlável porque estamos ainda em um processo para entender como lidar com tanto barulho.

Nossa geração estava acostumada a lidar com notícias provenientes de órgãos de maior credibilidade. Venho marcado a palavra ‘verdade’ com aspas para evitar a ingenuidade de acreditar que mesmo empresas como Globo e CBS não torciam aqui e ali o conteúdo de seus noticiários. Mas existia uma limitação jurídica e um medo de perder popularidade e credibilidade que mantinham estes veículos dentro de certos limites. Com a abertura digital uma enxurrada de novos “jornais” e agências de notícias permitiram que editoriais altamente parciais encontrassem leitores sedentos por confirmações de seus desejos para transformar canais como o Facebook em uma pororoca de conteúdos que eventualmente se convertiam em verdadeiros tsunamis editoriais. Neste momento a antiga imprensa marrom volta com ganho de escala. A barreira para atingir larga audiência já não existe mais.

Você provavelmente esbarrou em matérias de um site de notícias chamado RT em 2015. Este veículo conseguiu circular matérias por todo o mundo com notícias bem escritas para a Internet e frequentemente abordando temas polêmicos na rede. Acontece que a maioria das pessoas que compartilhavam seus artigos desconheciam o fato do editoria ser o Russia Today, um time gerenciado pelo governo Russo para defender a visão do Estado. Americanos que ainda descriminam este antigo inimigo político ajudaram espalhar textos repletos de conteúdo pela Internet sem ao menos checar a fonte. Isto aconteceu porque muitos ainda estão acostumados a validar notícias cuja formatação se assemelha aos velhos grandes produtores de conteúdo como The New York Times ou Rede Globo em hábitos repetidos por anos na velha composição do mercado editorial. Por outro lado, o RT soube localizar a insurgência de vozes de protesto que imploravam pela confirmação de suas crenças seja através de likes vindos de amigos ou por qualquer notícia que validasse seus discursos. Daí a confusão foi generalizada. Notícias falsas se espalharam com a força de pestes bíblicas pela grande rede… e por meio pessoas com educação de alto nível e inteligência razoável. Por todos nós. Pior! Os próprios veículos tradicionais cometeram erros graves ao reproduzir notícias da Internet que eram falsas em casos notórios.

Na faculdade de jornalismo os alunos são ensinados a perseguir a imparcialidade. Mas mesmo no mundo antigo (10 anos atrás) isso era impossível. Mesmo que um editorial não deixe o comercial ou o político agregar uma agenda ao seu conteúdo, no fim cada veículo usa seres humanos para validar, selecionar e definir o que seria publicado em uma edição de jornalística e estas escolhas, por mais que pretendessem ser imparciais, eram definidas pela idéia de ‘o que é mais importante’. Tal decisão não consegue fugir de um julgamento parcial. É uma visão particular de mundo e mesmo a escolha pelo que interessa mais ao Brasil sai de uma visão particular do que ‘é melhor para o Brasil’. O conceito de democracia parte exatamente do princípio de que o melhor para um país não surge da visão de uma pessoa, mas do conflito entre diferentes visões. Por isso, a noção de ‘verdade’ deve sempre ser entendida como relativa. Existem diferentes verdades sobre um mesmo assunto ou notícia. Se todos os jornais do mundo escreverem artigos sobre uma determinada notícia, teremos alguns sendo deliberadamente mentirosos, outros sendo maniqueístas (selecionando partes da verdade para passar um conceito) e outros procurando a verdade dentro dos limites que suas crenças e do campo de visão que têm sobre o mundo. Todas estas cascas formam a cebola da verdade e para formularmos a ‘melhor verdade’ é preciso eliminar mentiras, ignorar maniqueísmos e  contrapor, questionar e discutir os textos que sobrarem chegando a conclusões opinativas melhor embasadas. No fim, não haverá um núcleo puro, mas percepções mais embasadas.

Só que o processo para chegarmos a isso será complicado e marcado por grandes erros em todo o mundo. O medo que temos sobre a ressureição de grupos extremistas (de direita e esquerda) faz sentido porque nunca antes estas vozes encontraram tanto apoio por colegas distantes e artigos manipulados. O ser humano adora ser validado e  irá se agarrar a qualquer texto que diga “você está certo”. Somente quando o nível de insanidade atingir um ponto crítico a sociedade irá se dar conta da necessidade de rever este hábito de validação de suas idéias.

O fato de notícias mais realistas perderem espaço para notícias sensacionalisitas ajuda a prolongar este período de adaptação dos sentidos mas o Pulsotech costuma ser mais positivo do que a série Black Mirrror quando o assunto é tecnologia. O fim desta estrada pode levar a uma lógica parecida com a do blockchain. Mas o que esta tecnologia que está para mudar o mercado financeiro tem a ver com conteúdo?

A lógica do blockchain (usado em moedas digitais como o Bitcoin) é que migraríamos de um modelo financeiro onde poucos bancos são guardiões dos extratos bancários (nome e valores em conta) de bilhões de pessoas para um modelo onde bilhões de pessoas guardariam cópias dos extratos globais. O seu banco gasta fortunas para manter intacto o seu extrato bancário porque as informações sobre o que você tem em sua conta já não é definida por uma pequena pilha de dinheiro dentro de um cofre com uma etiqueta com seu nome. É tudo informação digital. Mas quem garante que um banco não altere um dado ou outro para seu próprio interesse? No caso do Bitcoin, cada um dos milhares de usuários tem um extrato com os valores de todo mundo e a segurança vem do fato de ser muito difícil alterar o extrato de todos para realizar uma fraude. Assim como com os extratos, a ‘verdade’ editorial deixaria de ser elaborada por poucos produtores de conteúdo para uma infinidade de produtores e validadores permitindo que toda notícia possa ser contestada e toda contestação possa ser questionada. Parece uma zona mas em breve surgirão algoritmos para facilitar este trabalho.

Atualmente os algoritmos das redes sociais funcionam para piorar as coisas. O que define a exibição de conteúdo em nosso Facebook é “afinidade”. Para o modelo acima funcionar precisamos ser expostos a idéias opostas. Quem é de esquerda, hoje, acaba com seu Facebook só mostrando posts de colegas de esquerda. Cada like que alguém da extrema direita dá em posts alinhados com seus ideais o algoritmo do Face aprende a priorizar posts similares e em pouco tempo todos os usuários acabam em uma bolha que só valida suas ideologias sem espaço para contestações. Mas por outro lado, uma notícia claramente falsa ou um argumento pouco embasado pode aumentar ainda mais nossa crença sobre um determinado assunto por ridicularizar a ‘oposição’. No fundo, um conflito saudável de idéias só é possível se o algoritmo for capaz de identificar posts e conteúdo mais ‘verdadeiro’ (elaborado com mais responsabilidade) para expor argumentos de interesse público a todos, principalmente a quem pendia para o lado oposto. Daí a preocupação de Zuckerberg em criar uma ferramenta que consiga, pelo menos, jogar fora da cebola as cascas claramente mentirosas e maniqueístas. Há quem vá mais à frente e acredite que robôs irão recortar trechos de diferentes publicações para construir um estudo mais ‘limpo’ sobre um determinado assunto.

No fim, se esta tecnologia surgir com alguma eficiência, uma população que sabe ler uma notícia com um pé atrás e segurando sua ânsia de validar suas crenças poderá contar com um volume de conteúdo mais rico e diverso para formar sua opinião, sempre sabendo que suas ‘verdades’ serão, mesmo no fim de tudo, um ponto de vista. E com esta certeza sobre suas incertezas poderemos ter um mundo mais propenso a entender diferentes pontos de vista sobre o mesmo assunto. Talvez o futuro editorial seja menos um que persegue a realidade e mais um que tem maior respeito pela multiplicidade de verdades.

Mas respire fundo. As confusões criadas pela ressurreição da imprensa marrom que ganhará destaque até lá deve trazer de volta propostas como o aumento da censura, a definição de regras mais rígidas para quem pode publicar artigos na Internet e até ondas de ataques jurídicos a cidadãos comuns que postem conceitos, opiniões e relatos de forma despretensiosa. Respire bem fundo! Até tudo melhorar, a sua feed de Facebook deve ficar ainda mais insuportável. Zuckerberg já percebeu isso.